domingo, 16 de março de 2008

O menino da Praça




Antoniel Costa Pereira, 25 anos, vigia de obra e de carros. Quase todo dia se senta, em cima de um morro, na sombra de uma árvore, única, da praça que liga a rua T-30 a T-55, no setor Bueno. O menino-homem parece hipnotizado pelo gotejar de água que sai da construção e cai no bueiro. Sua pele morena se mistura com a cor da terra. Seu cheiro de terra, de suor e de pinga denuncia uma noite mal dormida.

Os olhos são brilhantes e falam da saudade de suas Anas. A filha, Ana Vitória, 4 anos, havia mudado com a mãe Ana Claúdia para o Piauí. O amor havia acabado e o silêncio da praça o permitia mergulhar fundo e até uma sesta arriscava ao céu aberto.


Estudou até a 5 série, é torcedor do flamengo e por isso usa sempre a camiseta do time, o boné vermelho e preto e as calças de sarja preta. É baixinho e tem um jeito moleque, quem o observa de longe, dá no máximo 17 anos. Para a polícia parece uma ameaça e para muitos alunos das escolas próximas, também. Está sempre ali esperando um carro para ser vigiado, umas moedas para melhorar o salário e alguém para bater um papo. “Sabe cabeça vazia é oficina do Satanás é por isso que as pessoas roubam. Ainda há pouco a polícia parou e pediu meus documentos e perguntou se eu não tinha passagem, falei que não. Graças a Deus. Mesmo assim eles consultaram meus documentos e logo me liberaram.”

Ele mora em Aparecida de Goiânia, no Setor Garavelo, mas geralmente dorme no barracão da obra. No meio da terra vermelha, dos buracos, da bicicleta velha, dos tijolos, da madeira, do teto baixo, do cheiro forte, da construção do sobrado. Aceita seu destino de garoto pobre, não parece ter ambições e não pretende voltar a estudar. Naquele momento a única e real preocupação é que a bomba não pare de sugar a água do lençol freático que é jogada no “ralo”. A água limpa e não aproveitada. A bomba não pode queimar. Ele parece só observar a água cair e sentir saudade das suas Anas.



Um comentário:

Ricardo disse...

Lindo texto Ana,

Vc está escrevendo cada vez melhor.
Acho que agora são três anas na vida do rapaz: a esposa a filha e a jovem que parou para ouvi-lo e resolveu contar sua história.

Abraços
Ricardo